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MORAES MOREIRA - De Repente

por Zeca Baleiro



Desde o pioneiro grupo Novos Baianos, Moraes Moreira tem se mostrado um artista inquieto com os novos rumos e possibilidades da canção brasileira. A bordo de seu violão peculiaríssimo, percussivo e melódico na exata medida, Moraes urdiu, ao longo dos anos, uma coleção de belas e saborosas canções, algumas delas sucessos eternos que povoam o imaginário popular brasileiro de todos os tempos.


Irrequieto, dedicou-se, nos anos 90, a algumas experiências rítmico-eletrônicas, na companhia do produtor/percussionista Ramiro Musotto, em discos que, se não tiveram a repercussão devida, serviram para apurar (e depurar) o seu gosto pela experimentação.


Agora Moraes volta à carga com este surpreendente CD De Repente, flertando outra vez com a eletrônica em músicas sedimentadas pelo seu violão suingueiro, um olho na invenção, outro no legado da moderna canção brasileira, seara que ele ajudou a lavrar ao longo do tempo, em anos de intensa atividade musical. Com a colaboração do jovem músico e produtor Alexandre Reis, e participações especiais de Armandinho, Davi Moraes e Ivete Sangalo, Moraes dá o seu novo recado com a maestria de sempre.


Adotando uma dicção hip hop sem desprezar a melodia, o disco traz várias canções de sabor radiofônico, que passeiam com desenvoltura pelo xote, baião, axé, embolada e samba, o que confirma as vocações de "inventor rítmico" e hit maker do compositor. Mas há também a faceta romântica em duas belas canções ­ Pra Vida Inteira e O Dia-a-dia é Cruel.


Afora o rico acervo rítmico do disco, o que mais chama a atenção no trabalho é a qualidade das letras, quase todas saídas da pena de Moraes, que conviveu com grandes mestres poetas da canção ­ Galvão, Fausto Nilo, Abel Silva e Leminski, entre eles -, e aqui mostra que aprendeu (muito bem) a lição. Há grandes achados poéticos, versos cheios de verve como: "em meio à multidão só se distingue/ quem tem suíngue quem tem suíngue" (em Quem Tem Suíngue), ou "cai no samba ah moleque / a situação é punk / vou tomando meu pileque / no comício, no palanque" (em Na Boca do Povo). Há também refrãos que já soam como clássicos desde a primeira audição, caso da brejeira Minha Religião e da joãogilbertiana Eu Gosto de Ser Baiano, parceria com Fred Góes.


De Repente é um trabalho que reitera o eterno vigor da música brasileira, cujo vocabulário vem sendo escrito com talento e suor por artistas de grande força criativa como Moraes Moreira, sempre buscando agregar novos sentidos à história da canção brasileira. O recado é dele próprio: "dona palavra me disse / que só no dicionário / parada ela não fica / só nesse vocabulário / só no que significa / caiu na boca do povo / ganhou um sentido novo / ganhou um novo sentido".
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